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“O Senhor das Moscas” – Uma Análise do Mal

Por Artur Eduardo

 

O que aconteceria se você colocasse um grupo de crianças em uma ilha remota, sendo que algumas das tais fizessem parte de um belo coro de vozes juvenis, enquanto o restante também fosse, como aquele grupo, composto por jovens criados sob uma conservadora e rígida formação escolar? Um paraíso idílico? Bem, uma sociedade de terror e morte é a realidade presente no best-seller “O Senhor das Moscas”, de William Golding, escrito em 1954, isto é, após a Segunda Grande Guerra. Golding, que viria a ganhar o prêmio Nobel de Literatura em 1983, serviu na Marinha Real Britânica e, como os soldados de sua época, pôde testemunhar as atrocidades dos nazistas, as quais desfizeram completamente seu ideal socialista de perfeição inerente do Homem, um liberalismo otimista que estava em plena ascensão na Europa e EUA no início da primeira metade do século XX.

A ilha, onde as crianças sobreviventes da queda de um avião que as estava transportando para um lugar seguro, é claramente uma referência ao Jardim do Éden. Como um monumental trabalho de filosofia moral, como veio a ser reconhecido posteriormente, O Senhor das Moscas perscruta a natureza do mal, que, segundo o autor, está preconizada de forma latente nas crianças sobreviventes. Após a instauração de uma frágil democracia, com regras, deveres e direitos para todos, a nossa inclinação natural ao pecado – digo, do Homem – é evidenciada através das crianças, que mostram que os déspotas, psicopatas, os sedutores que corrompem os ideais das massas para que possam governá-las, já estão presentes no físico e na mente de jovens pré-adolescentes, como que evidenciando que o Paraíso, por mais que tentemos restaurá-lo, está perdido dentro de nós.

O título do livro é uma clara referência a Baal Zebube, ou o Senhor das Moscas, aquela que alguns estudiosos bíblicos entendem ser uma vívida personificação do demônio para os judeus dos dias de Jesus. O “Senhor das Moscas” se revela a um dos jovens, na ilha, personificado pela cabeça de um porco que é empalada após uma caçada. Este jovem, “Simon”, é epilético e tenta acalmar o medo então reinante no grupo, de uma “besta”, um “animal” que porventura rondasse a floresta da ilha, pronto para atacá-los. Claro que esse animal não existia e que era uma forma de o medo, tão inerentemente presente nos corações humanos, instaurar-se nos jovens garotos, por estarem num ambiente inóspito e sem quaisquer inspeções de adultos.

O “infante”, no livro, é visto como o Homem em sua aurora de “inocência”, presente, sim, no Paraíso, mas com a potencialidade completa do Mal, que, por fim, iria expulsá-lo do Paraíso… bem como o Paraíso de si. “Simon”, que, como qualquer “redentor”, ao tentar dissuadir os demais de seus medos, num momento em que os garotos estão dançando em redor de uma grande fogueira que fizeram – inclusive os “chefes” de facções rivais que se formam na ilha, “Jack” – o caçador, e “Ralph” – o líder democrático -, é trucidado pelos “caçadores” do grupo, quase que encarnando a mensagem de que o Homem no seu estado atual natural é o ser que mais se identifica com a “besta”, com o “animal” do qual ele tenta correr.

Os jovens garotos não haviam percebido, mas a “besta” realmente existia e esperava para atacá-los por dentro: estava crescendo e pronta para destruí-los a todos, isto é, a partir de seus próprios corações. “Ralph” tem um amigo, “Piggy”, que se apresenta no livro como a “voz da razão”. É o amigo de “Ralph”, seu conselheiro e é através de seus óculos que os garotos conseguem fazer algumas fogueiras durante o período em que ficam na ilha. Após a separação inevitável dos grupos em dois, “Piggy” tenta por juízo nas mentes de “Jack” (líder dos caçadores) e dos demais, mas é morto, após confrontar os caçadores a devolverem os óculos que haviam roubado, pois aqueles também precisavam fazer uma fogueira. Após a morte do amigo, “Piggy”, só restava “Ralph”, que como o amigo morto, não sucumbiu às pinturas de guerra e selvageria, que os demais haviam feito, mas mantinha suas roupas britânicas.

Mesmo quando dançava juntamente com “Piggy” e os outros garotos, em volta da fogueira, num momento de “fuga”, como que uma indicação primitiva de que às vezes sacrifica-se tudo em que se crê, por causa da (falsa) sensação de segurança do grupo, o personagem “Ralph” insistia em não perder sua civilidade. Fora naquele frenesi que confundiram-se por causa do medo e assassinaram “Simon”, o garoto epilético e fortemente espiritual, o qual viera para dar-lhes as boas novas de que não havia qualquer besta. “Ralph” e “Piggy” simplesmente negaram para si mesmos que eram culpados pela morte de “Simon”, enquanto os demais sucumbiam gradativamente à natureza do Mal.

“Ralph”, agora caçado como um porco da ilha, como os que eles haviam caçado e despedaçado alguns dias antes, foge por sua vida. Na ânsia de capturá-lo e matá-lo, matando com ele todo o resquício do verniz civilizacional que restava, “Jack” lidera os caçadores e estes põem fogo em vários pontos da ilha. A ideia era queimar “Ralph” vivo, como uma “oferenda” àquela ilha que guardava uma “besta” sem nome, a qual devorá-los-ia a todos a qualquer instante. “Ralph” foge por sua vida e tropeça ante os pés de um estupefacto oficial da Marinha Real Britânica que aportara na ilha, após os tripulantes de seu navio verem as chamas ao longe. Impressionado, ele observa o menino caído e os demais, que surgem, pintados, como selvagens sedentos por sangue e morte, tendo-se se tornado abesta da qual tão aterrorizadamente fugiam. Após pensar que era uma brincadeira, o oficial se dá conta de que os “civilizados” jovens sobreviventes britânicos não estavam brincando… aquela ilha, definitivamente, não era o Paraíso. Aliás, esta é uma das ideias centrais do livro: o Paraíso – sem Deus – parece-nos estar perdido para sempre.

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