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Incursão na Ontologia Divina

Por Artur Eduardo

No academicismo teológico ouvem-se, frequentemente, alegações com fortes implicações teológicas e filosóficas. E isto é importante pois, do contrário, como entenderemos o mundo que nos cerca? Sabe por que vivemos no paradoxo atual de uma ciência que baseia-se em fé.. e renega a “fé” pela alegação de que esta destrói a base daquela? Porque simplesmente pensa-se cada vez menos sobre o mundo que nos rodeia. Eis a importância de bons estudos teológicos e filosóficos – valendo-me das palavras de certo catedrático – “Não é o que fazemos com a Filosofia (e atrevo-me a dizer “com a Teologia”, também), mas o que ela(s) faz(em) conosco“. Esta falta de percepção e acuidade pode iludir a todos, não se engane. Desde os mais iletrados, aos que se auto-intitulam “informados“… desde os incaltos aos doutores, desde os analfabetos aos professores. Uma visão de mundo que faça sentido precisa ser consensual às bases do pensamento racional. Assim, até as críticas serão verdadeiramente construtivas. Do contrário, tudo, tudo mesmo, redunda em achismos, unilateralismos, jactâncias(*), minimalismos, nada mais.

Afirmo, também, que nossas frases prontas para “definirmos” a Deus por si sós são insuficientes, pois não alcançam todos os meandros da realidade. Se a realidade existe com Deus que é ilimitado, toda a realidade é ilimitada, sendo necessário um número ilimitado de pensadores para, através de tentativas e erros ilimitados, chegarem a uma conjectura satisfatoriamente compreendedora de Deus, o que é realmente impossível. Mas, infelizmente ou felizmente, precisamos perscrutrar sobre os absolutos, e os que me refiro aqui são a base do nosso sistema epistemológico. Logo, afirmar que não há absolutos, por si só já é um contrassenso, pois tal frase é, supostamente, absoluta (ou absolutista). Absolutos existem, e isto é absoluto. Precisamos deles, pois com os mesmos definimos a realidade que nos cerca. Observe que disse “definimos” e não “construímos”, pois a realidade é, e não pode ser uma ilusão. Do contrário a própria ilusão seria ilusão, outro contrassenso.

Precisamos de frases que digam alguma coisa sobre Deus, pois pressupomos a sua existência cognoscível. Descartes, há muito já especulara sobre isto, falando do “perfeito vindo ao imperfeito“. É deste ponto que pegamos nossa carona – O que quer dizer perfeito? Quando dizemos que Deus é perfeito geralmente nos referimos aos atributos morais, pois a palavra encontra ampla aceitação de tal sentido no vocabulário popular. “Perfeito” é alguémque ´não erra´, é alguém moralmente insulperável, um bastião irrepreensível de benignidade. Mas, “perfeito” é muito mais do que isso. Quando transpomos o vocábulo para objetos, observamos que a palavra toma uma conotação deestética. As bombas que caíram sobre as cabeças dos líderes talibãs não foram melhores em si mesmas do que as que o Hezbolah atira sobre Israel, apesar de seus contextos serem completamente distintos. Logo, observamos que temos uma responsabilidade, sim, quando definimos a realidade: Ela precisa ser corretamente definida.

Se precisamos definir bem a nossa realidade, a que chamaremos desta feita em diante por “Criação“, o que se dirá do Criador? Como definir o Criador? Em uma época de design inteligente(*), evolucionismo, teísmo aberto(*),universos paralelos, descontrucionismo(*) pós-modernista, física quântica associada à filosofia oriental mais do que nunca precisamos saber definir bem nossa realidade, os propósitos da mesma, e tudo nos leva à direção do Criador, a mente que de forma ilimitada, pensou e executou aquilo que acreditamos serem infinitas possibilidades de existências e organizações no Universo. O quê podemos dizer sobre Deus que corresponda à realidade, dentre tantas outras vozes? A Bíblia não se preocupa em definir ou argumentar sobre a existência de Deus. “No início criou Deus os céus e a terra“, começa o livro de Gênesis, apresentando Deus. Ao contrário, poderíamos afirmar que, se há alguma preocupação bíblica neste aspecto não é com a existência de Deus, mas com os que pensam em sua inexistência: “O ímpio, na sua soberba, não investiga. Não há Deus são todas as suas cogitações” (Sl. 10:4). A Bíblia nos diz muito sobre Deus, e com algo do que ela diz podemos tecer alguns pensamentos que deem-nos uma visão de algo definido sobre o Criador (visão incompleta, asseverarão alguns… é verdade.. mas mesmo assim, uma visão).

Quando, baseado na Bíblia ou não, o homem imagina Deus sendo necessariamente infinito, algo está querendo se dizer com isso, mesmo que a maioria dos que afirmem tal coisa não faça uma boa idéia do que se está dizendo. Não digo isto presunçosamente, digo o que é realidade. Como professor já pude me deparar com debates acalorados sobre a natureza da realidade que perderam seus própósitos, não porque os debatedores eram incompetentes mas porque deixaram-se levar pelo subjetivismo perigoso e avesso ao objetivismo necessário para analisarmos, por exemplo, o quê estamos querendo dizer realmente com infinito. Deus é perfeito porque é infinito? Pode ser… Deus é perfeito necessariamente porque é infinito? Com certeza não! O que este “necessariamente” implica para que a respsta a esta pergunta difira daquela? O fato de atribuirmos perfeição a Deus por causa apenas da sua infinitude. E infinitude não é motivo mais do que suficiente para, necessariamente, atribuirmos perfeição a Deus? Não, pois se assim fosse, o conjunto dos números racionais, ou irracionais, ou inteiros teriam de ser divinizados, posto que TODOS são infinitos. Algo, como os conjutos numéricos citados, podem ser infinitos, mas limitados, o que por si só diferencia as categorias às quais se destinam tais predicativos. Apesar de ser alguma coisa, para perfeição “infinito” não significa coisa alguma.

O infinito, portanto, não é perfeito? Não (que o digam os conjuntos dos números). Mas Deus tem de ser infinito, pois do contrário não poderá ser perfeito. Isto porque o perfeito é infinito. Explico: Quando falamos que algo é “perfeito“, como disse no início, estamos nos referindo a partes da realidade. E algumas destas partes são completamente arbitrárias – como a estética de um tempo. Algo pode ser considerado perfeito esteticamente, mas imperfeito em vários outros aspectos (imagine um prédio aparentemente impecável, visualmente perfeito, mas com sérios problemas de fundação). Infinitude, portanto, é substituída por uma terminologia mais satisfatória, justamente por ser maisabrangente – ilimitação (o trocadilho destacado é proposital) . Quando dizemos que Deus é perfeito porque é infinito, vimos que tal afirmação pode condizer com a realidade, mas quando inserimos a palavra necessariamente(“Deus é perfeito necessariamente porque é infinito“), a condição da possibilidade desfaz-se, sinalizando que infinitude não é sinônimo de perfeição (mesmo que pareça o contrário). Quando, porém, inserimos a palavra ilimitação o problema rapidamente se desfaz, e, tanto o possivelmente quanto o necessariamente encontram adequações: “Deus é perfeito necessariamente porque é ilimitado“.

Como se pode testar o axioma? Como na falsificabilidade popperiana(*), penso que a melhor maneira é tentandofalseá-lo. A mesma é falseável? Claro que em termos empíricos, não. A pergunta, retórica, refere-se a termos filosóficos. Esta pergunta tem, portanto, algum valor? Com certeza, pois se uma filosofia não explica algo não é filosofia mas qualquer conjectura vazia. É neste sentido que uso o termo. Proponho, portanto, um experimento mental: Podemos perguntar se é possível pensar algo contrário ao que pretendemos dizer – “Deus é perfeito necessariamente porque é ilimitado?”. Para responder esta pergunta é necessário que saibamos qual é a negativa da questão. “Deus “não” é perfeito necessariamente porque é ilimitado?“. Necessariamente, não. Observe que esta não é a resposta obtida quando substituímos ilimitado por infinito: Deus “não” é perfeito necessariamente porque é infinito? “Sim!!”. Você pode (e talvez deva) estar se perguntando: “Por que ilimitado é uma terminologia melhor?“. Porque ilimitado transita melhor, creio eu, entre o ideal e o sensível, e porque não dizer entre o subjetivo e o objetivo. E, quando nos referimos ao objetivo, observamos claramente o contraste entre a Criação e o Criador – Toda a Criação é finita. É uma impossibilidade imaginarmos algo que seja finito quanto ao espaço, mas infinito quanto ao tempo. E vice-versa. Infinitude, pois, remete-nos a algo percorrido ou contabilizado. É por isso que o conceito de infinito está, também, nas contas (matemática) e na física. Quando se propõe a percorrer (espaço) e contabilizar (tempo) vem em nossa mente claramente a idéia do infinito.

Isto não tem sentido quando pensamos em Deus. Relacionar Deus ao tempo e espaço não tem sentido algum. Não se pode pensar e consequentemente atribuir perfeição no sentido absoluto da palavra partindo-se da premissa do percorrido ou contabilizado. Assim, chegaremos a idéias errôneas, a posteriori(*), como a “divinização dos números” (premissa dos pitagóricos). Ao contrário, visualizando uma ilimitação (a priori), nos aspectos subjetivos e objetivos, no tempo e espaço (objetivo) e, no amor e justiça – assim como na ira e em todos os sentimentos construtivos (não se esqueça de que zelo, ira e justiça, mesmo nos nossos contextos, andam sempre juntos – subjetivo), não têm sentido quando afirmarmos que não têm fim, mas revestem-se de sentido quando afirmarmos que não têm limites em Deus. Se todos os aspectos de Deus são ilimitados a priori(*), há necessariamente perfeição (em todos os sentidos). Se forem infinitos, não necessariamente!!

Deus é perfeito necessariamente porque é ilimitado. E o mais interessante é que isto não é uma construção da realidade, como tanto querem os novos neopagãos orientais que gostam de física quântica, mas uma tentativa dedefinição da realidade. A realidade não pode ter surgido por si mesma, nem pode ter existido infinitamente, mesmo que somente em um de seus aspectos (tempo ou espaço). O universo expande-se, de forma ilimitada. Mas, não há ilimitação quanto ao tempo. A Criação é limitada. Tal limite (no caso, o tempo) torna tudo o que há imperfeito, essencialmente. Nem sempre tudo o que existe, existiu. Deus não somente é infinito, mas ilimitado. Não há nenhum tipo de limite para qualquer dos aspectos que compõem sua realidade. Não é que ele seja tão incomensuravelmente grande (infinito) que não se pode medir…. é que, em se tratando do Criador, isto não tem sentido algum, seja notempo, seja no espaço, seja no amor, em ira ou justiça!…

Dicionário

A Priori – Que não depende da facticidade, de nenhuma forma de experiência, por ser gerado no interior da própria razão (diz-se de raciocínio, método, conhecimento etc.) [Pensadores racionalistas como Descartes, Leibniz ou Kant afirmam a existência desse tipo de conhecimento; empiristas como Locke ou Hume o negam.]

A Posteriori – Fundamentado nas experiências, nos fatos.

Falsificabilidade – Possibilidade inerente a qualquer teoria científica de ser submetida a uma refutação parcial, decorrente de sua incapacidade constitutiva de refletir integralmente a natureza dos fatos; refutabilidade [para o filósofo austríaco Karl Popper, característica essencial do método científico, que por este critério antidogmático se distingue da irrefutabilidade metafísica ou pseudocientífica].

Jactância – Bravata, fanfarrice, imodéstia.

Design Inteligente – Teoria de que tudo o que foi criado, principalmente a vida, tem uma procedência inteligente. Esta teoria não é necessariamente teísta, embora os conceitos se confundam. Na biologia e bioquímica, os proponentes do DI, dentre eles vários teístas cristãos, chamam a atenção para a teoria da informação genética, como uma possível evidência de inteligência e uma impossibilidade de que a vida tenha surgido e se desenvolvido a partir de forças cegas e aleatórias.

Teismo Aberto – Na verdade, como diz Luiz Sayão, o TI “é uma reação exagerada contra o calvinismo“. Sustenta a idéia de que Deus não conhece propriamente todo o futuro, pois haveria infinitas possibilidades, assim, Ele muda ou adequa-se conforme as circunstâncias. A proposta desta teologia é isentar Deus de toda a culpa sobre os males do mundo. O problema é que nesta tentativa sacrifica-se o atributo da onipotência divina.

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