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Interpretando Textos Bíblicos Difíceis

Por Artur Eduardo

 

Há textos na Bíblia que são curiosos. E digo isso porque a curiosidade dos tais se dá por um fator um tanto paradoxal: enquanto parecem ser fáceis de se ler, ao mesmo tempo mostram-se complexos de se interpretar. E olhe que não me refiro apenas às parábolas ou alegorias, presentes nas literaturas bíblicas sapienciais (os Livros de Sabedoria ou Poéticos), na literatura profética e nos Evangelhos, principalmente. Mas, em toda a Escritura Sagrada, há textos dos mais diversos tipos que se revelam um verdadeiro desafio à interpretação.

Um desses textos que sempre me fascinou pela simplicidade e aparente complexidade é o que se encontra em Lucas 12:54-59: “Disse também às multidões: Quando vedes aparecer uma nuvem no poente, logo dizeis que vem chuva, e assim acontece; e, quando vedes soprar o vento sul, dizeis que haverá calor, e assim acontece. Hipócritas, sabeis interpretar o aspecto da terra e do céu e, entretanto, não sabeis discernir esta época? E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo? Quando fores com o teu adversário ao magistrado, esforça-te para te livrares desse adversário no caminho; para que não suceda que ele te arraste ao juiz, o juiz te entregue ao meirinho e o meirinho te recolha à prisão. Digo-te que não sairás dali enquanto não pagares o último centavo”.

Parece-nos que a chave para discernir “a época”, “o tempo” – veja a comparação com que o Senhor Jesus faz com o clima – está na forma como compreendemos os fenômenos físicos. Há, obviamente, uma analogia entre o conhecimento do clima e o conhecimento da época. Os “sinais” atmosféricos, relativos ao clima, nos permitem fazer previsões meteorológicas. Assim também são os “sinais” desta época, que, infelizmente, para muitos ainda parecem indiscerníveis. Estar atentos aos “sinais” de nossa época é condição necessária para prevermos os desdobramentos. E a Bíblia sempre falou das características da época, como, neste texto de Lucas.

“Esforçarmo-nos para nos livrarmos do adversário no caminho” é uma advertência velada, porém incisiva, acerca de uma característica quase que onipresente em nossa época: o desamor. Há uma implacabilidade dos homens que tem nos deixado apreensivos, pois a mesma fora profetizada para os “últimos dias”: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão … implacáveis…” (2 Tm. 2:1-2). Mas, mais do que um chamado ao bom senso e à prudência ético-moral, este texto encaixa-se perfeitamente naquela categoria sobre a qual falei, e que talvez seja uma das marcas mais fundamentais de nosso tempo, que é a falta de amor. E o amor é exatamente a base substancial de onde, e através da qual, o próprio cristianismo surge.

Em um mundo de desamor e implacabilidade, o alerta que Jesus faz revela absolutamente necessário. Mais do que nos ensinar a falar com magistrados, por exemplo, Jesus revela que não podemos esperar o amor, a compaixão e a misericórdia de quem não vive com tais sentimentos. Assim, a esfera social roda com fortes mudanças, mas uma característica que lhe parece perene, eterna: o desamor. Esperar amor de um mundo como o nosso é sinal de inobservância dos preceitos bíblicos. O que significaria, portanto, expressão usado por Jesus, “antes que te arraste ao juiz”? Olhando metaforicamente, de cara podemos dizer que significa: “resolva o que você precisa com o próximo, pois, do contrário ele/ela não terá piedade”.

E é o cuidado apostólico do autor evangélico, aliado à inspiração escriturística, que nos permitem ver as palavras de Jesus. Sim, porque o texto de Lucas é uma perícope (porção de texto) que deve ser elevada aos aspectos da argumentação, da História, da cultura e das nuances das línguas grega e hebraica, e é todo este conjunto que permite uma correta interpretação do texto, não só deste, mas qualquer que seja. “Ver as palavras de Jesus” significa observá-las no contexto histórico-gramatical (linguístico). E é aqui que entra a força das analogias, recurso presente nos ensinos rabínicos desde idos dos tempos interbíblicos. Este tipo de ensino, através da pessoa de Cristo, foi registrado por Lucas com todo o cuidado, permitindo-nos entender que, da mesma forma que observamos nuvens e prevemos chuva; ou ventos específicos, e prevemos calor, devemos discernir a época, cuja base é de desamor. Assim, não resolvendo o que devo com quem quer que seja, antes de irmos perante um magistrado, significa que muito provavelmente encontrarei a implacabilidade incisivamente predita pelo Ap. Paulo, em 2 Timóteo 3:1-2.

O que fazer então? Ter a consciência deste ponto do tema é um bom primeiro passo. Outro, é não negar a realidade. O real é tudo aquilo que se revela por e na Verdade. Daí a importância de entendermos que a realidade não é sinônimo de verdade, mas a verdade é sinônimo de verdade. Tudo o que é verdadeiro é real; mas nem tudo o que é real é verdadeiro. Astrologia é real. Mas, será verdadeira? Sendo assim, qual a certeza sobre o texto em questão? Primeiro, se assumimos a Palavra de Deus (Bíblia) como Verdade, então admitimos que esta nos dá um quadro exato da Realidade. E, ao olharmos a Verdade do e no texto, veremos que Jesus propõe uma analogia entre os fenômenos climáticos e a época em que vivemos. A força da Verdade desta analogia é testada na Realidade: ora, o mundo esvazia-se de amor, de fato, e os que não se precaveem da falta de amor, estão fadados a “não sair dali, até pagar o último cetil”, isto é, chocar-se-ão inevitavelmente com a crueza má de nossa realidade.

Concluo, afirmando que só há uma maneira de, realmente, vencermos ou mudarmos a realidade da falta de amor, evidenciada por Cristo. O próprio texto deixa claro qual a nossa “arma” – o discernimento. O discernimento, aqui, em momento algum se aplica à mera sagacidade, mas àquilo que perscruta, investiga e encontra nos processos da realidade a comprovação do ensino da verdade dos preceitos bíblicos. É esta sinergia bíblica que, inclusive, nos permite ultrapassar as barreiras naturais da Escritura (língua, cultura, tempo) e nos fazer ver que, em termos bíblicos, muitas vezes os aparentes paradoxos são pedagógicos, necessários e o que importa, de fato, é como agimos frente às circunstâncias de nossas vidas: sem discernimento e sofrendo; ou com discernimento, e evitando um pouco mais a própria implacabilidade de nossa época. No final, o que nos conforta, é que o amor de Deus, que a tudo transforma, prevalecerá em todo o universo.

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